quinta-feira, 10 de julho de 2014

Leitura recomendada para todas as pessoas próximas a um doente de parkinson e mesmo um paciente.



Alan M. Hultquist
PARKINSON
Como Entender e Conviver com a
Doença de Parkinson

Um guia prático e esclarecedor para
familiares, acompanhantes, cuidadores,
amigos e técnicos de saúde


A partir da perspectiva de um portador de doença de Parkinson o leitor irá entender como ele afeta a vida cotidiana e como é possível lidar com os problemas provocados por ela.


O livro é uma introdução ao tema e apresenta informações úteis de como as pessoas podem ajudar os portadores de Parkinson.

Ele vai auxiliar familiares, amigos, cuidadores e profissionais de saúde a entender e melhorar o relacionamento.

Conheça David, que tem a doença de Parkinson. A partir de sua perspectiva, ele ajuda o leitor a compreender o que é a doença de Parkinson, como ela afeta a vida cotidiana e como é possível lidar com os problemas provocados por ela. David também dá conselhos de como as pessoas podem ajudar quem tem Parkinson.
O autor fornece informações acessíveis sobre uma doença complexa através da experiência de David, que tem Parkinson. Este livro é um ótimo guia para compartilhar com a família, os amigos e os profissionais da saúde na procura por uma compreensão pessoal sobre esta doença.

SOBRE O AUTOR: Alan M. Hultquist é doutor em psicologia educacional e trabalhou com educação por 33 anos como professor de educação especial e psicólogo educacional. Ele foi diagnosticado com Parkinson logo depois de fazer 50 anos. Alan também é autor de An Introduction to Dyslexia for Parents and Professionals, What is Dyslexia? A Book Explaining Dyslexia for Kids and Adults to Use Together e Can I tell you about Dyslexia?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

... e Dona Guiomar se foi ...



Chegamos de Curitiba ontem à noite. Fomos levar nosso amor ao meu querido amigo Vitor Pereira Aires. Sua companheira de vida Dona Guiomar, foi atingida por um ônibus enquanto pedalava pela Rodovia Alexandra Matinhos. O motorista do ônibus jogou pelo que se sabe, o seu veiculo sobre ela. Segundo ele mesmo, por não ter outra alternativa.

Como é possível um motorista de ônibus “ter que abalroar” um ciclista por não ter outra alternativa naquele momento? Esse motorista teria que ter, em qualquer situação uma única alternativa, preservar vidas... Preservar a vida de uma ciclista que aprendeu a pedalar, com um grande campeão do ciclismo - Vitor.

Dona Guiomar aprendeu a pedalar depois dos sessenta anos para acompanhá-lo. Eles eram inseparáveis...

Dona Guiomar se foi do nosso convívio... Deixou um enorme buraco nos nossos corações... Deixou a vida no seu melhor momento, no momento em que o amor encontrou seu eco no coração do Vitor. Juntos viajavam, pedalavam, recebiam amigos com sua simplicidade natural e com muito carinho sempre. O dois eram como se fossem um...

Encontrei duas únicas notícias completamente truncadas na internet de dois órgãos diferentes, aliás um deles simplesmente copiou a notícia truncada do outro. Não se sabe o nome do motorista, não se sabe o nome da empresa proprietária do ônibus, não se sabe se foi feito o teste de dosagem alcoólica no motorista. Afinal, nada se sabe pela notícia veiculada.

Este fato, também mostra o desrespeito com os ciclistas. Fica mais uma vez a sensação irritante provocada pelo senso comum – “quem anda de bicicleta é pobre e se é pobre pode atropelar porque não acontece nada”... Somos parte da estatística? Queremos ser? Eu não! Por isso estou escrevendo minha revolta neste artigo, para acordarmos de uma vez por todas...

Até quando esses motoristas assassinos vão ficar impunes? Até quando vamos tolerar pacificamente esse tipo de assassinato? Eu considero quem tira a vida de alguém, por não ter outra opção no momento, um assassino.

O motorista do ônibus cometeu um crime, usando sua arma – um ônibus... Poderia ser uma pistola, ou uma faca, o crime seria o mesmo – assassinato.

Até quando as autoridades do trânsito serão coniventes com estes assassinos? Coniventes sim! Para mim é conivente, quem fiscaliza o trânsito das cidades e rodovias e não tem rigor na aplicação da lei! O motorista do ônibus tirou uma vida, isso é crime! A Polícia Rodoviária Estadual o que fez? Prendeu o motorista em flagrante pelo crime cometido?

E se Dona Guiomar fosse a mãe do motorista? Será que ele não teria outra alternativa, a não ser matá-la? E se Dona Guiomar fosse a sua mãe? Você deixaria por isso mesmo? Usaria a velha e desbotada desculpa – que nada a traria de volta?


Curitiba tem hoje vários grupos de ciclistas organizados de diferentes regiões da cidade. Tem também a expressão de grupos de ciclo ativismo como a Ciclo Iguaçu e a Bicicletada. Proponho o início de um movimento imediatamente para pararmos definitivamente com esse tipo de ocorrência. Amanhã poderá ser você, ou alguém que você ama, tanto quanto Vitor amava Guiomar. O que você vai fazer a respeito?

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Audax 200 km - 2006

Estamos em janeiro de 2006 e o Audax não saiu da minha cabeça desde a prova de 200 km em 2005.

Converso com clientes da oficina sobre o assunto e decido tentar fazer o máximo de provas possíveis na temporada 2006. Estava decidido!

Um companheiro de pedaladas, proprietário de uma academia de condicionamento físico, se propôs a ajudar cedendo um horário três vezes por semana gratuitamente.

Esta mesma pessoa era na época professor de educação física em uma faculdade de Curitiba e estava orientando um aluno seu para fazer o trabalho de conclusão do curso. Surgiu então a ideia de juntarmos o meu desafio com a necessidade de seu aluno. Com isso, ganhei aulas de natação na faculdade sob a supervisão do aluno.

Algumas semanas depois de iniciado o treinamento, mais duas alunas do curso de nutrição, que precisavam também escrever o seu trabalho de conclusão, passaram a participar oferecendo sugestões de dieta alimentar para facilitar o treinamento.

Consegui mais alguns apoiadores para viabilizar a compra de suplementos e garantir um bom desempenho.

Treinar era uma obrigação quase diária... Ora piscina, ora academia, ora os terríveis treinos de “tiro”. O treino de “tiro” consiste em fazer, no meu caso, no velódromo de Curitiba, 5 voltas marcando o tempo de cada volta, de forma que a segunda volta fosse mais rápida que a primeira e assim sucessivamente até a quinta volta. Depois da série eu podia descansar um pouco. Voltava para casa imprestável, com as pernas moles...



O grupo de Curitiba desta vez foi maior. Éramos cerca de 10 pessoas, contando com os ciclistas e o pessoal que estava fazendo o trabalho de conclusão dos cursos. Neste grupo haviam pelo menos 4 ciclistas estreantes em provas de longa distância.



Passamos pela vistoria do equipamento, que era uma exigência do Club Audax Parisien. Estávamos todos aptos e preparados para o desafio.

Eu estava mais tranquilo dessa vez. O percurso já era conhecido desde o ano anterior, na ocasião da minha primeira prova de Audax.

Na largada o grupo de Curitiba estava coeso, porém eu sabia que era uma questão de alguns quilômetros rodados para o grupo dispersar. Isso não era nada que depusesse contra o grupo, era apenas uma questão de cada um achar seu ritmo próprio para a prova.



Quem pedala sabe que existem “dias” e “dias”. Tem dias que não vai mesmo! O pedal não rende, o cansaço derruba, o bico da garrafa de líquido não abre direito, o elástico da meia aperta o tornozelo, etc... Tudo é motivo para atrapalhar.

Nesse dia eu estava “nos cascos”. Confiante e relativamente mais experiente que meus companheiros, eu comecei poupando, pois sabia que o difícil não era o início da prova, mas o final. Estava muito bem treinado e não cometeria o erro que cometi no ano anterior. Estava assistido pelo pessoal que estava dependendo do meu resultado, para escrever seus trabalhos de conclusão de curso. Enfim estava muito bem. Apenas uma coisa me preocupava - a alimentação.

As formandas de nutrição haviam estudado com cuidado o que eu teria que ingerir durante a prova. A dieta consistia em tomar a cada 50 km, duas garrafas 750 ml com líquidos. Uma com uma mistura de 50% Coca Cola sem gás e 50% água e a outra com Glico-dry, para garantir os níveis de açúcar. O que me preocupava era o que iria comer, pois em uma prova longa se dispende muita energia e o que havia no cardápio para cada 50 km era – uma barra de proteína e um sachet de Glico-gel. Pouco? Não, absolutamente não, pois durante a prova eu ainda poderia comer intercaladamente um pacote de Club Social. Mas tinha que durar até o final da prova! Não preciso dizer que não cheguei no PC 2 com o pacote de Club Social, preciso?



O meu desempenho foi ótimo até a ponte onde a estrada faz uma curva a caminho de Charqueadas, na volta do PC 2. Ali precisamente aprendi a não usar nunca mais pneus Levorim 1.0 e de fato nunca mais usei para nada, a não ser fazer fogueira em São João.

Vinha muito bem e ao sair da ponte, tomando a curva para a esquerda, ouvi um estouro característico de pneu furado, seguido do silvo do pneu esvaziando. Parei e comecei a fazer o conserto. Preocupado com o tempo que estava perdendo, e diante da dificuldade de montar o pneu, já que estava com um pouco de discinesia, acabei tendo que montar o pneu com as espátulas e numa manobra mal feita furei a câmara que tinha acabado de montar. Tive que repetir a operação. Desmontei de novo o pneu e desta vez tive que fazer um remendo. Infelizmente a discinesia, que são movimentos involuntários da musculatura, uma característica de qualquer leve excesso de dosagem de Levodopa – o remédio para a Doença de Parkinson, me criou uma grande dificuldade para montar o pneu. Não queria mais ter que usar espátulas pelo risco de furar a câmara novamente. Assim, de tanto insistir em montar o maldito pneu Levorim 1.0 com as mãos, acabei fazendo uma enorme bolha na palma da mão direita.

Pronto! Agora sim estava encrencado! Pensava em como iria segurar o guidão da bike com a bolha já estourada e com a pele solta na palma da mão, enquanto nervosamente enchia o pneu com minha bomba.

Se você acredita na Lei de Murphy eu lhe respeito, porque eu não acreditava. Não sei como aconteceu e afirmo que nos anos de ciclismo que tenho, nunca vi acontecer o que se passou comigo. De alguma forma que não consegui entender até hoje, acabei entortando o êmbolo da bomba, aquela haste que você empurra para encher o pneu. Fiz a bandida da bomba voar no meio do mato. E agora? Tudo vinha acontecendo tão perfeitamente, a prova fluindo muito bem... Mas eu estava literalmente frito em azeite quente.

Foi então que conheci um outro lado das provas de Audax, que considero um dos pontos altos do desafio.

Vários ciclistas passaram por mim e não perceberam o tamanho do problema que eu tinha. Mas um ciclista marcou essa prova para mim, um exemplo de solidariedade, que aliás norteia os verdadeiros randonneurs. Seu nome é Helton Morais a quem devo todo respeito com ciclista e como figura humana.

Helton vinha com uma bicicleta estranha, era uma reclinada. Aparentemente feita com canos de ferro e conexões de ferro (rsrs). Coisa de gaudério mesmo!

O Helton parou e perguntou se eu precisava de alguma ajuda. Expliquei a situação toda para ele e mostrei minha mão. O Helton encostou sua bike e calmamente começou a desmontar o pneu para mim. Tentei ajudar, mas ele pediu que eu me acalmasse e sentasse no acostamento enquanto ele fazia o conserto. Esse é o espírito do Audax – o verdadeiro!

Pneu consertado e cheio. Pé na estrada, e pé na estrada com vigor! Voei baixo até chegar ao PC 3. Carimbei o passaporte e sai rumo aos últimos 50 km. Estava muito bem até então, embora sentisse muita fome.

Nesse último trecho comecei a sentir o cansaço da prova. O rendimento começou a cair, a velocidade começou a baixar e o esforço feito para recuperar o tempo perdido com o pneu furado aliado à fome que eu sentia, eram os vilões.



Atrás de mim, só tinha a van do “fecha”, a viatura usada pela organização para certificar que ninguém ficou na estrada. No trevo da BR 116, não consegui mais aguentar, parei no posto de combustível, onde tinha um pequeno boteco. Entrei olhei na estufa do boteco e vi que ali jaziam dois pastéis enjeitados pelos frequentadores do local. Perguntei do que eram e o bolicheiro disse - de carne. Mandei para dentro os dois com uma latinha de Coca Cola.

Nossa! Quando entrei na BR 116 eu voava com a bike! Um a um, fui deixando para trás todos os ciclistas que tinham passado à minha frente. Ouvindo trance no MP3 player, quanto mais corria, mais queria correr. Num instante cheguei à entrada de Porto Alegre onde o Klaus me aguardava sinalizando para parar.



Parei e ele perguntou:

Como é que você chegou aqui tão rápido? Você estava quase “morto” no trevo da BR 116!

Olhei para ele e rindo disse:
Foi o pastel do boteco no trevo! Você tem que experimentar!

Dali ao DC Shopping, a chegada da prova, foi um pulinho...



Fiz meu melhor tempo para 200 km – 10h30min!




Uma vitória imensa para quem tinha na época 26 anos de diagnóstico de Doença de Parkinson, que não teria acontecido, não fosse a inestimável ajuda do Helton Morais!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Audax 200km/2005

Ontem, revirando fotos antigas, achei as fotos das primeiras provas de longa distância que eu participei em Porto Alegre - RS.
Por um momento revivi as emoções das duras vitórias conseguidas à custa de muito esforço físico.

Em 2005 eu já contava com 25 anos de diagnóstico, e acredito que tenha sido o único ciclista portador da Doença de Parkinson, a concluir uma prova de Audax ou Randonée, como é conhecida a modalidade atualmente.

Este post será dividido em 3 etapas, uma para cada prova realizada. Foram 2 de 200 quilômetros e uma de 300.

Estamos em 2005, mais precisamente no mês de janeiro, na pequena oficina de minha propriedade em Curitiba, no bairro Rebouças.
Foi nessa oficina a primeira vez que ouvi falar de Audax (http://www.audax-club-parisien.com/EN/), através do Elídio Werka, um cliente da oficina que também participava dos eventos de cicloturismo que eu promovia na época.

Elídio me falou com entusiasmo da prova que aconteceria em Porto Alegre. Na verdade tratava-se de um desafio pessoal e não de uma prova de ciclismo nos moldes tradicionais. O desafio era percorrer a distância de 200km no tempo máximo de 13 horas e 30 minutos.

Eu tinha recentemente feito uma viagem entre Curitiba - PR e Piçarras - SC, cuja distância é aproximadamente 220 quilômetros. Tinha saído as 5 da manhã de casa e cheguei ao destino às 18h30min. Meu tempo para esta viagem era compatível com o exigido para a prova do Audax, porém existiam alguns detalhes que para mim eram na verdade dúvidas:

1. Na viagem entre Curitiba e Piçarras percorri 220 quilômetros, mas havia um facilitador - a descida da serra, onde podia descansar as pernas por algum tempo...

2. Não conhecia o roteiro da prova do Audax, não sabia que ritmo seria necessário impor na bicicleta. Eu podia imaginar simplesmente dividindo a distância a ser percorrida, pelo tempo da prova, mas isso não significava muito. Sempre podia ocorrer um furo de pneu, ou algum outro imprevisto que significaria uma diminuição no meu tempo de pedalada...

3. Os remédios que tomo seriam efetivos pelo mesmo tempo que estava habituado a tomar? Se precisasse mais remédio, provavelmente sofreria os efeitos do excesso, que são as discinesias.

Esse fantasmas assombravam minha cabeça, mas como nunca fui de me encolher para desafios, fui, aliás fomos. 

Éramos um grupo de 5 ciclistas de Curitiba. Eu, o Elídio Werka, o Sérgio Riekes, o “seo” Manoel e o Stresser. Todos feras, eu era a única exceção.

Na volta da minha viagem a Piçarras, enfrentei problemas com a empresa de ônibus que faz a linha entre Curitiba e Piçarras. O atendente me fez pagar um extra para carregar a bicicleta no porta malas do ônibus e acrescentou: se você tivesse a "carteirinha de ciclista", não teria que pagar.
Carteirinha? Que carteirinha, perguntei. 

E o atendente falou:

- Carterinha de ciclista moço. Você é ciclista e não sabe?
Paguei a taxa e quando cheguei a Curitiba, tratei eu mesmo de fazer a minha própria carteirinha, no meu computador. Fiz a carterinha de "atleta" da Bike Line Brasil, minha empresa na época.

Essa brincadeira me rendeu o não pagamento da taxa de embarque de material esportivo no check-in do aeroporto para a viagem a Porto Alegre. Os outros quatro companheiros de aventura tiveram que pagar a taxa... Chegamos a Porto Alegre e fomos, após acomodar a bagagem, fazer a inspeção do equipamento exigida pela organização da prova.

Tudo absolutamente novo para mim e para os meus companheiros de aventura.

Chegamos cedo na manhã seguinte ao local da largada, o Shopping DC. 

A largada foi dada pontualmente às 6 da manhã, sob uma fina garôa. Éramos mais de 100 ciclistas tomando parte das ruas de uma sonolenta Porto Alegre. Tentei me manter entre os companheiros de Curitiba, mas meu ritmo de pedalada é bem diferente. Pedalo mais compassadamente, o que significou distanciar-me deles...

Por volta das 7 horas precisei de uma dose de remédios. Parei e comecei a procurar nos pequenos alforges que continham provisões para a viagem, algumas ferramentas, remendos para pneus, etc... Não conseguia achá-los. Assim, vi o último pelotão de ciclistas, gradativamente se afastar de mim.

Estava só! Estar só no começo de uma jornada de 200 km, é algo a se considerar...



Havia a pressão do tempo para concluir a prova, muito diferente de um simples “passeio” de 200 km. A solidão na estrada, nos faz pensar muito, nos faz perder ritmo e a vontade de desistir aumenta...
Enfim... Eu estava na fogueira, o máximo que poderia acontecer era me queimar...

Montei na bicicleta ainda engolindo os comprimidos, abaixei a cabeça concentrado e segui em frente. Cerca de 30 minutos após a parada dos remédios, fui alcançado por uma dupla de ciclistas que estavam participando também, mas tinham chegado atrasados para a largada. Foi a minha sorte!

Começamos a nos revezar na liderança do pequeno pelotão. Concentrados... Nem uma palavra... Apenas o objetivo de chegar...

A viagem começou a render. Andávamos a uma média de 25 km/h, suficientes para que eu recuperasse o tempo perdido com os remédios.

Após cerca de uma hora e meia rodando naquele ritmo, comecei a considerar qual a razão, se estávamos girando os pedais num ritmo bom, porque não alcançávamos os retardatários do último pelotão...

Tínhamos recebido um Mapa de Rota da organização antes da largada, mas como tudo era novidade, não me preocupei em consultá-lo e nem meus colegas atrasados. O resultado foi que a uma certa altura, um carro nos fez sinal para parar e de dentro dele o motorista perguntou:

- Vocês estão participando de alguma prova?
Respondi que sim. Novamente o motorista pergunta:

- Para onde estão indo?
Puxei o Mapa de Rota e vi a primeira localidade a ser alcançada onde estaria o Posto de Controle 1. Olhei e lhe disse:

- Charqueadas!

O motorista riu e falou:

- Vocês passaram da entrada para Charqueadas, faz bem uns 10 km!

No exato momento que ele falou isso, levei um susto. Era tão lógico ter consultado o mapa para saber a direção a seguir, mas a ansiedade não permitiu...

O corpo paga pelos erros da cabeça.

Meus dois companheiros de jornada ficaram meio perdidos, sem saber o que fazer...

Virei a bicicleta em sentido oposto ao que estávamos indo e pedalei forte na direção da entrada para Charqueadas. Aquele erro me custaria 20 quilômetros a mais. Os 10 de ida para a direção correta e os 10 já pedalados.

Novamente estava só! Mas desta vez pedalando com raiva, com gana para chegar ao PC 1.

O erro me custou além dos 20 quilômetros a mais, um terrível desarranjo intestinal, fruto do momentâneo desequilíbrio emocional.

Procurei lembrar onde tinha colocado o papel higiênico na minha pequena bagagem carregada na bicicleta, e lembrei-me que na lista de itens não tinha previsto isso.
Cólicas foram minhas companheiras de viagem por mais de 50 quilômetros...

Eram quase 11 horas quando finalmente cheguei ao PC 1. Minha média horária estava muito aquém do que precisava fazer, cerca de 10km/h, resultado do erro cometido.

Parei e apenas carimbei o passaporte no posto de controle. Não tive coragem de usar o banheiro, após quase 100 ciclistas terem passado por ali...

Montei na bicicleta e parti em direção ao PC 2, mais 50 quilômetros de cólicas... Precisava ainda melhorar minha média horária para poder concluir a prova em tempo. Fiz um cálculo rápido. Era cerca de meio dia e eu ainda tinha 150 quilômetros para percorrer. O tempo máximo da prova se esgotava às 19h30min. Eu tinha que andar muito mais rápido do que tinha andado até ali. Estipulei fazer uma média de 25 km/h, embora soubesse que não aguentaria pedalar nesse ritmo pelas 7 horas e 30 minutos que me restavam de tempo. Na verdade joguei 5km/h a mais na média que estipulei, pois sempre havia a possibilidade de um imprevisto qualquer, além das paradas obrigatórias nos postos de controle.

Rodei mais 25 quilômetros a caminho do PC 2 e para minha surpresa e desgosto vi os primeiros ciclistas do pelotão já percorrendo o caminho de volta do PC 2. Inclusive alguns dos companheiros de Curitiba que vieram comigo. Estes ao cruzar comigo gritaram palavras de incentivo, que aliás vieram em boa hora!

Este primeiro grupo, a cabeça do longo pelotão, estava cerca de 50 quilômetros à minha frente. Eu continuava vivo, firme no meu propósito... As subidas a poucos quilômetros do PC 2 foram duramente vencidas uma a uma...

Cheguei no PC 2! Antes mesmo de carimbar o passaporte, fui ao banheiro. Àquela altura já não me importava com a quantidade de ciclistas (quase todos) que tinham passado por ali. Precisava ir ao banheiro para voltar a me concentrar na prova.
Quando cheguei à porta do banheiro, encontrei-a fechada. Esperei um pouco e após alguns minutos vi uma sorridente senhora que acabara de fazer a limpeza do sanitário, sair com baldes e detergentes dali.

Se eu fosse evangélico diria em alto e bom som – Oh Glória! O banheiro estava impecavelmente limpo!

Fiz o que tinha que fazer e fui comer algo. O tempo estava contra mim. Tinha pouco menos de 4h30min para pedalar e concluir a prova.
Alguém me sugeriu comer uma lasanha para repor os carboidratos. Achei uma boa ideia e pedi uma no restaurante... Péssima ideia! A refeição pesou no estômago e a pressão começou a baixar já nos primeiros quilômetros em direção ao PC 3.

Sono... Muito sono... Não conseguia fazer render a pedalada...
Parei em um restaurante na beira da estrada e pedi uma colherzinha de sal para colocar embaixo da língua. Em alguns minutos estava desperto novamente.

Pedalei com determinação para chegar ao PC 3, onde consegui chegar por volta das 16 horas. Finalmente via um saldo positivo na jornada. Tinha conseguido recuperar algum tempo, o que não significava que poderia relaxar ainda. Tinha 2h30min para percorrer a última “perna”, os 50 quilômetros finais da prova.

Entrei na sala onde estava instalado o PC 3, em um posto de combustível. Eu devia estar com uma aparência horrível, pois a atendente do posto de controle ao me ver falou:

- Você vai desistir não é? Aquelas palavras serviram para puxar ainda mais minha gana de chegar. Olhei para ela e disse: 

- Moça não vim de tão longe com minha bicicleta, carregando um passageiro extra comigo, a minha doença, para me entregar assim. 

Carimba esse passaporte que eu estou saindo... Quiseram chamar um médico para ver minhas condições físicas, mas não aceitei. Peguei o passaporte e sai como um louco pedalando.

Muitos meses depois, no final do ano, soube de um fato muito próprio deste tipo de desafio, onde se põe todo esforço físico possível em busca de concluir dentro do tempo limite. O fotógrafo da prova, que acumulava a função de “cuidar” dos últimos participantes do pelotão, disse ao pessoal do PC após a minha saída da sala:

- Ninguém vai tirar esse cara da prova... Se eu tiver que amanhecer na estrada cuidando dele, vou amanhecer cuidando dele...

De volta à estrada o cansaço começou a pegar forte... Além do erro cometido, tinha o peso da idade, estava com 50 anos na época, havia ainda um carona comigo, um tal parkinson que se instalou sem pedir licença no meu corpo...

Eu tinha esgotado tudo já naquela altura. Minhas pernas já não respondiam, no entanto eu “precisava chegar”.

Olhando no ciclo computador da bicicleta via, apesar do terreno plano por onde pedalava, a velocidade baixar pouco a pouco... Nesses momentos levantava do selim e pedalando em pé juntava o que me restava de força concentrando tudo no pedal. Começava a embalar e o esforço extra me fazia sentar no selim, perdendo velocidade novamente. Assim foram nem sei quantos quilômetros...

Desci da bike e comecei a empurrá-la chorando. O esforço... Tanto esforço... Meu corpo cobrava o meu despropósito de tentar me igualar a outras pessoas, muitas das quais provavelmente nem sabem o que é Doença de Parkinson. Chorei, gritei meu ódio de estar ali naquela estúpida tentativa de superar a mim mesmo...

Meu próprio grito de ódio acabou me fazendo acordar daquela letargia e acabou me trazendo novamente à realidade. Era eu contra mim mesmo, o que havia a temer? O cansaço? A dores no corpo? Isso tudo já não era novidade...

Subi na bicicleta novamente e comecei a pedalar. Afinal após mais de 10 horas sentado no selim, aquela descida para empurrar a bike tinha me feito bem. Chorar também me fez bem. Gritar também. Então... O que mais faltava? Pedalar para tentar chegar no tempo.
Anoiteceu pouco depois de entrar na BR 116, a garôa foi minha companheira...
Já não enxergava o que o ciclo computador marcava, assim como não conseguia enxergar as horas... Sabia que estava próximo, mas chegaria dentro do horário? Já não tinha certeza de nada. O coração pulava dentro do peito...

Passei por alguns pontos de referência que criei pela manhã pensando que poderiam ser úteis para mim no final da prova. Entre estes pontos de referência estavam pontes sobre canais do Rio Guaíba, o rio que banha Porto Alegre. Ao subir uma das pontes, a última no caminho de volta, vi lá embaixo ao lado da ponte, a caminhonete da organização parada com o giroflex ligado e o motorista do lado de fora sinalizando com os braços, pedindo que eu parasse.

Um redemoinho de pensamentos tomou minha cabeça... Estava tudo acabado... Tinha corrido como um louco contra mim mesmo o dia inteiro, tinha superado minhas dificuldades físicas, enfim estava me sentindo um trapo em forma de ciclista. Amaldiçoei o momento em que me meti naquele desafio.

Minhas lágrimas começaram a se misturar com os pingos da chuva...
Fui parando a bicicleta, triste... Todo o cansaço do dia, toda a tensão que passei, tinha resultado nisso... Desclassificação por ter excedido o tempo limite...

Finalmente parei e diante do sorriso do motorista, fiquei sem saber o que falar. Fiquei olhando para ele com o olhar perdido, pensando em tudo o que tinha passado durante o dia todo, quando ouvi ele falar:- Parabéns! Você concluiu a prova dentro do tempo! São 19h26 e neste exato ponto, você está passando a marca de 200 km!

Eu fiquei tão surpreso que não sabia o que fazia. Gritos e gritos foram dados por mim de alegria, de dor, de satisfação por ter superado meus limites, muito além do que imaginava poder superar.

Quando entrei no estacionamento do Shopping DC, para completar a emoção, ouvi meu nome ser aclamado pelo locutor do evento tendo ao fundo o trecho Oh Fortuna, da ópera Carmina Burana, de Carl Orff.



Meus companheiros que viajaram junto comigo de Curitiba, estavam lá após uma longa espera, para me abraçar pela conquista.



Precisei ser literalmente “tirado” de cima da bicicleta. Minhas pernas estavam moles, não conseguia nem ao menos respirar direito, mas estava lá! Tinha conseguido vencer a mim mesmo. Venci a dor, o desânimo, venci o cansaço, a solidão da estrada, venci meu erro...

Venci a mim mesmo!

terça-feira, 4 de junho de 2013

Medo...

Tudo ficou mais lento... Os passos, as reações, mas as emoções aceleraram...

A sensação de estar caminhando trôpego, acompanhada de outra sensação – a de ser diferente, ou melhor a sensação de “estar diferente” foi corroendo a auto estima. 

Me recordo de sentir muita vergonha deste novo estado de ser. Andava de cabeça baixa, devagar como os idosos andam. Pessoas olhavam para mim nas ruas, com uma curiosidade desconfortável...

Eu mesmo não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que alguma coisa não estava bem com minha saúde. Medo, muito medo...

Aos quatorze ou quinze anos de idade, meu pai disse um dia bravo para mim, chamando minha atenção - “levanta esses pés do chão para andar rapaz, você parece um velho andando”.

Ninguém, nem eu mesmo percebia, mas um novo “companheiro” estava, já naquela época, instalado. Quase imperceptível, sorrateiramente ele vinha minando aos poucos meu corpo. Tirando devagarzinho minha agilidade, solapando meu bem estar, como um rio que devora as suas próprias margens.

Medo... Muito medo...

Um fato marcou e foi a constatação definitiva. Um pulo na piscina do clube, no poço dos trampolins. Quatro metros de profundidade. Eu nadava muito bem, sempre nadei, desde menino na praia. Naquele dia não! A água da piscina me engolia, alguma força estranha segurava meus braços e minhas pernas. Não podia flutuar. Pânico, não. Terror! De dentro do terror, pedi socorro ao guarda vidas do clube. Alguns amigos pensavam que eu estava brincando e riam, pois sabiam que eu nadava bem. Desespero! O guarda vidas finalmente me tirou de lá. O fôlego faltava, o corpo tremia, estava exausto...

Medo... Muito...

Consultar um médico.. Era preciso... Medo de ouvir o inevitável – minha saúde aos 25 anos, não era a mesma. Pior... era neurológico... Descartas todas as outras possibilidades - vida sedentária, falta de exercício, estresse emocional, “tive que” procurar um médico.

Medo... Ainda mais... Exames, muitos exames... E a nova realidade caiu na minha cabeça me atordoando.

Você sabe o que é Doença de Parkinson? Peguntou o médico.
Não. Nunca ouvi falar. Disse eu.
Os exames que pedi não revelaram nada errado. Descartei todas as outras possibilidades. Você está com a Doença de Parkinson. Não procure ler a respeito. Vá levando sua vida como tem levado, a diferença é que terá que tomar remédios pelo resto da sua vida. É uma doença ainda sem cura, é degenerativa, é também progressiva, embora o progresso seja lento, mas existe tratamento. Sentenciou o médico.

Medo e lágrimas... Muitas lágrimas no caminho de volta para casa...

Passaram trinta e três anos daquele dia...

Passaram mais de quarenta e dois anos do dia em que ouvi do meu pai que parecia um velho andando...

Estou aqui! Agora acostumado...

O medo se foi, as lágrimas secaram...

A vida continuou pela sede de viver...

Bom dia!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Porque não ser diferente?

E porque não... ser diferente?

Quando eu era criança, com cerca de 9 anos, geralmente íamos passar as férias em uma pequena cidade do interior paulista, onde moravam meus avós. Era a oportunidade anual de rever os primos, os tios e os avós. 

Minha mãe ficava sempre na casa dos avós, e eu ficava circulando com minha mochilinha de roupas e coisas de uso pessoal, entre a casa dos primos.

Para ir da casa dos avós até a casa de uma das primas, eu tinha que seguir sempre em frente por uma rua que se chamava “Rua Boiadeira”. O nome da rua não foi dado ao acaso. Recebeu este nome porque era por ali que passavam as boiadas que muitas vezes vinham de outras cidades e se dirigiam ao matadouro municipal.

O meu receio era encontrar com uma dessas boiadas passando enquanto eu fazia o trajeto.

Um dia aconteceu. Eu já estava próximo da casa da prima e um dos bois se desgarrou, tentando fugir do rebanho. Não me lembro ao certo como era esse boi, mas para mim era muito grande e ameaçador. Vinha em disparada na direção que eu ia seguindo. Subi em um muro alto, o mais rápido que pude e o boi passou por onde eu estava correndo para a sua liberdade seguido por dois boiadeiros a cavalo. O que aconteceu depois com o boi eu não sei. Mas esse fato marcou para mim, não pela fuga em si, mas pelo fato de todo o rebanho seguir a passo lento para o matadouro, enquanto aquele boi em especial decidiu por si mesmo que todos os outros do rebanho estavam errados e seguiu sua vontade.

Nós que temos a Doença de Parkinson sabemos que a nossa tendência é nos recolher dentro de nós mesmos, como uma espécie de de proteção, ou fuga … A pergunta que faço é:

Porque tem que ser assim da forma que a doença nos induz a ser?

Em outro artigo publicado antes de ontem, escrevi sobre a diferença entre aceitação e resignação.

Resignação é aceitar sem outra possibilidade... É saber que está sendo conduzido para o matadouro e não fazer, nem ao menos tentar lutar pela vida...

Por que não ser diferente?